Uma fazenda que recebe turistas continua sendo um lugar de trabalho. O gado precisa ser apartado, a ordenha tem hora, a colheita não espera e os vizinhos não estão de férias. A maior parte dos problemas entre visitantes e moradores no campo não vem de má-fé, mas de hábitos da cidade levados para onde eles não cabem.

A lista abaixo reúne os erros mais comuns, por que eles pesam e o que fazer no lugar. Alguns têm consequência legal, e a tabela no fim resume o que diz a Lei de Crimes Ambientais.

Com quem trabalha

1. Deixar a porteira como não estava

Porteira aberta deixa gado sair para a estrada; porteira fechada fora de hora separa bezerro da vaca. A regra é simples: deixe cada porteira exatamente como encontrou e, na dúvida, pergunte.

2. Entrar em área de produção sem convite

Curral, estufa, galpão de agrotóxico e sala de ordenha têm riscos e regras sanitárias. Entre só acompanhado. A vivência certa para isso está em ordenha e vivências com animais.

3. Regatear o preço do produtor

Queijo, doce e artesanato de sítio carregam horas de trabalho. Pechinchar como em feira de importados desvaloriza quem recebe a visita. Se o preço não cabe, compre menos.

4. Pagar a quem não é da comunidade

Em visitas a comunidades quilombolas, ribeirinhas ou indígenas, prefira reservar com a associação local ou com quem ela indica. Assim a renda fica no lugar, como explicado em turismo de base comunitária.

Com os animais

5. Alimentar bicho de fazenda ou silvestre

Pão e biscoito fazem mal a cavalos, cabras e peixes, e atraem animais silvestres para perto de gente e de estradas. Ofereça comida só quando o anfitrião der a ração certa.

6. Montar ou posar com animal cansado

Cavalo de passeio precisa de descanso, água e sombra. Se o animal está machucado, magro ou com arreio ferindo, não monte e avise a administração. Mais critérios em cavalgada.

7. Levar o cachorro sem combinar

Cachorro solto persegue galinha, bezerro e bicho do mato. Leve só se a propriedade aceitar e mantenha na guia. Veja fazenda pet friendly.

Com a natureza

8. Acender fogo e soltar balão

Na seca, uma fagulha vira incêndio de pasto em minutos. Use apenas churrasqueira ou fogão indicados pelo anfitrião e nunca jogue bituca no capim.

9. Levar plantas, pedras, ovos ou filhotes

Bromélia arrancada da mata, orquídea de barranco e filhote de passarinho "resgatado" saem da natureza para não voltar. Fotografe e deixe onde está.

10. Abrir atalho na trilha

Cortar caminho no barranco provoca erosão e destrói a vegetação que segura o solo. Siga a trilha marcada, como em trilha em fazenda.

Com as pessoas

11. Fotografar gente e casas sem pedir

Moradores não fazem parte da paisagem. Peça licença antes de fotografar pessoas, crianças, rituais e o interior das casas, e respeite o não.

12. Fazer barulho e levar o lixo para o vizinho

Som alto à noite atravessa quilômetros no silêncio do campo. E lixo deixado em sítio sem coleta vira problema do dono: traga de volta o que levou.

O que diz a lei

Alguns desses erros são crimes previstos na Lei nº 9.605/1998, a Lei de Crimes Ambientais.

CondutaArtigoPena prevista
Matar, perseguir, caçar, apanhar ou utilizar animal silvestre sem autorizaçãoart. 29detenção de 6 meses a 1 ano e multa
Maus-tratos a animais silvestres, domésticos ou domesticadosart. 32detenção de 3 meses a 1 ano e multa
Maus-tratos a cão ou gatoart. 32, § 1º-Areclusão de 2 a 5 anos, multa e proibição da guarda
Provocar incêndio em floresta ou outras formas de vegetaçãoart. 41 (redação da Lei nº 14.944/2024)reclusão de 2 a 4 anos e multa; se culposo, detenção de 6 meses a 1 ano
Fabricar, vender, transportar ou soltar balões que possam provocar incêndioart. 42detenção de 1 a 3 anos ou multa
Destruir ou maltratar plantas de ornamentação em propriedade privada alheiaart. 49detenção de 3 meses a 1 ano ou multa

A existência da pena não é o ponto principal. O ponto é que, no campo, o efeito de um descuido costuma ser maior e mais lento de reparar do que na cidade.

Quando o problema é grave

Se durante a viagem você presenciar violação de direitos de crianças e adolescentes, como exploração sexual ou trabalho infantil, ou violência contra pessoas idosas e pessoas com deficiência, ligue para o Disque 100, o Disque Direitos Humanos do governo federal. A ligação é gratuita e a identidade de quem denuncia é mantida em sigilo.

Em caso de crime ambiental em andamento, como caça ou incêndio, acione a polícia ambiental do estado ou o 190. Em emergência com fogo, o Corpo de Bombeiros atende pelo 193.

Escolher bem também é responsabilidade

Prestadores de serviços turísticos, como hospedagens, agências e transportadoras turísticas, são obrigados ao cadastro no Ministério do Turismo, pelo artigo 22 da Lei Geral do Turismo. Consultar o Cadastur antes de reservar ajuda a evitar empresas irregulares.

Para avaliar a hospedagem em temas como água, lixo e energia, use o checklist de turismo rural sustentável. E, se a viagem é para comunidades tradicionais, leia antes o guia de turismo quilombola.

Fontes