O Brasil tem 1.327.802 quilombolas, segundo o Censo 2022 do IBGE, o primeiro a contar essa população. Eles vivem em 1.696 municípios, e 68,2% estão no Nordeste. Bahia (397.059 pessoas) e Maranhão (269.074) somam metade do total.
Só 12,59% dos quilombolas moram em territórios oficialmente delimitados, que eram 494 na data do Censo. Esse dado ajuda a entender por que o turismo, em muitas comunidades, é também uma forma de mostrar que o território existe, tem história e é ocupado.
O que se vive numa visita
Um roteiro quilombola costuma juntar natureza e convivência. As atividades mais comuns:
- trilhas e cachoeiras guiadas por moradores;
- casa de farinha, roça, bananal e produção de doces;
- comida da comunidade, servida em casas ou restaurantes comunitários;
- rodas de conversa com os mais velhos sobre a formação do quilombo;
- dança, música e festas tradicionais, quando o calendário coincide;
- artesanato feito no território.
Não é passeio de parque temático. A comunidade decide o que mostrar, e algumas áreas, festas e rituais não estão abertos a visitantes.
Quatro territórios com turismo organizado
Kalunga, Goiás
O maior território quilombola do país em área, com mais de 260 mil hectares e mais de 39 comunidades em Cavalcante, Monte Alegre de Goiás e Teresina de Goiás. Na comunidade Engenho II, a Associação Kalunga Comunitária do Engenho II organiza condutores, alimentação, hospedagem e transporte para as cachoeiras Santa Bárbara, Capivara e Candaru.
Segundo a Agência Sebrae de Notícias, foram mais de 70 mil visitantes em três anos e impacto direto de quase R$ 12 milhões em 2022 e 2023. A prefeitura de Cavalcante informa que a visita à Santa Bárbara exige condutor, contratado no centro de atendimento ao turista ou na associação. Brasília fica a 309 km de Cavalcante, e o Engenho II a cerca de 117 km de Alto Paraíso, segundo o Brasil de Fato.
Vale do Ribeira, São Paulo
Em Eldorado, a 242 km de São Paulo, o Circuito Quilombola reúne André Lopes, Ivaporunduva, Mandira, Pedro Cubas, Pedro Cubas de Cima, São Pedro e Sapatu. Ivaporunduva tem pousada comunitária com pensão completa, em quartos com beliches.
O roteiro que o Sesc São Paulo levou em fevereiro de 2026 passou por Ivaporunduva, Sapatu e André Lopes em quatro dias: Cachoeira de Meu Deus, Trilha do Ouro, bananal orgânico, oficina de ervas medicinais, dança tradicional e Caverna do Diabo com guias quilombolas. As trilhas foram classificadas como de média e alta intensidade.
Campinho da Independência, Rio de Janeiro
Fica a cerca de 20 km do centro de Paraty, entre a serra e o mar, à beira do rio Carapitanga. A Casa do Quilombo guarda utensílios de trabalho e fotos da comunidade, e boa parte dos moradores trabalha com artesanato de cestaria. Combine a visita com antecedência para ter um guia da comunidade.
O quilombo integra a Rede Nhandereko, criada em 2019 com comunidades quilombolas, caiçaras e Guarani Mbya de Paraty e Ubatuba para vender roteiros sem intermediários. Paraty fica a 257 km do Rio de Janeiro e a 269 km de São Paulo.
São Domingos, Minas Gerais
A comunidade quilombola de São Domingos fica a cerca de 3 km do centro de Paracatu, no Noroeste mineiro. Um projeto conduzido pelo Sebrae Minas desde 2023 capacita moradores para montar um roteiro com a Casa Museu, a fábrica de biscoitos da associação, produção de açafrão e rapadura, artesanato de coco indaiá, máscaras da Caretagem e tranças.
Até a reportagem do Diário do Comércio, de agosto de 2024, o roteiro estava em estruturação. Confirme com a associação se as visitas já estão abertas.
| Território | Cidade-base | Distância da capital mais próxima | Destaque |
|---|---|---|---|
| Kalunga (Engenho II) | Cavalcante (GO) | 309 km de Brasília | cachoeiras com condutor quilombola |
| Vale do Ribeira | Eldorado (SP) | 242 km de São Paulo | circuito de sete quilombos, caverna e Mata Atlântica |
| Campinho da Independência | Paraty (RJ) | 257 km do Rio | artesanato, rede de turismo comunitário |
| São Domingos | Paracatu (MG) | 233 km de Brasília | roteiro em estruturação |
Distâncias rodoviárias calculadas no OpenStreetMap em outubro de 2026.
Como se preparar
- Reserve com a associação ou com quem ela indica. É ela que distribui o trabalho entre condutores, cozinheiras e hospedagens.
- Pergunte o que está incluído: condutor, ingresso, refeições, transporte interno.
- Leve dinheiro em espécie. O sinal de celular costuma ser fraco nos territórios.
- Prepare o corpo para trilha. Calçado com sola firme, água e protetor. Veja o que levar para a fazenda.
- Combine a fotografia. Pergunte antes de fotografar pessoas, casas e celebrações.
- Se for com crianças ou adolescentes de outra família, leve a autorização de viagem exigida pelo ECA para menores de 16 anos. Detalhes em turismo rural com crianças.
Perguntas frequentes
Preciso de autorização para entrar em um quilombo?
Não há uma autorização pública única. Quem autoriza é a própria comunidade, por meio da associação. Chegar sem combinar pode significar não ter condutor, comida ou permissão para entrar em certas áreas.
Posso visitar a Cachoeira Santa Bárbara por conta própria?
Não. A visita exige condutor da comunidade, segundo a prefeitura de Cavalcante. Os guias também pedem que a cachoeira seja divulgada como parte do território Kalunga, e não de Alto Paraíso.
Turismo quilombola é só sobre o passado?
Não. As rodas de conversa tratam da formação do quilombo, mas também de titulação de terra, roça, escola e trabalho. Ouvir os dois lados dessa história faz parte da visita.
Qual a melhor época?
Depende do lugar. Em Cavalcante, o estudo da Goiás Turismo descreve chuvas de outubro a março e seca forte de abril a setembro, o que muda o acesso por estrada de terra e o volume das cachoeiras; no Vale do Ribeira, a chuva pode alterar trilhas, como avisa o próprio roteiro do Sesc. Pergunte à associação e veja melhor época para turismo rural.
Para entender o modelo de gestão por trás dessas visitas, leia turismo de base comunitária.
Fontes
- Agência Brasil. Censo 2022: Brasil tem 1,32 milhão de quilombolas (07/2023).
- Agência Sebrae de Notícias. Turismo de base comunitária gera renda e fortalece identidade no Quilombo Kalunga (25/06/2026).
- Brasil de Fato. Quilombo Kalunga resiste contra apagamento como principal destino turístico na Chapada dos Veadeiros (22/07/2026).
- Goiás Turismo e Sebrae Goiás. Mapeamento situacional DTI: Sistema Territorial Turístico de Cavalcante.
- Sesc São Paulo. Circuito Quilombola: Quilombos do Vale do Ribeira, roteiro 26/02 a 01/03/2026.
- Wikipedia. Quilombo Campinho da Independência.
- Portal Tela. Indígenas e afro-brasileiros promovem turismo ancestral na costa do Brasil (30/07/2025).
- Diário do Comércio. Paracatu: projeto do Sebrae estrutura afroturismo no quilombo São Domingos (02/08/2024).




