Para o Ministério do Turismo, turismo rural é "o conjunto de atividades turísticas desenvolvidas no meio rural, comprometido com a produção agropecuária, agregando valor a produtos e serviços, resgatando e promovendo o patrimônio cultural e natural da comunidade". A frase é de 2003, das Diretrizes para o Desenvolvimento do Turismo Rural, e continua sendo a referência das políticas públicas.
Ela tem três partes, e cada uma exclui alguma coisa. Entender isso ajuda a separar uma fazenda que recebe visitantes de um resort que só usa a palavra "fazenda" no nome.
A definição, parte por parte
"No meio rural." No Brasil, o que é rural ou urbano é definido por lei de cada município, que traça o perímetro urbano. O Ministério do Turismo lembra que outros países usam densidade ou tamanho de população; aqui, o critério é político-administrativo. Uma chácara dentro do perímetro urbano, por mais verde que seja, fica fora.
"Comprometido com a produção agropecuária." É o centro do conceito. A propriedade planta, cria, colhe ou transforma algo, e isso aparece na experiência do visitante: na mesa, na ordenha, na loja de queijos. O MTur também distingue "turismo no espaço rural", que abrange qualquer turismo feito no campo, do "turismo rural" propriamente dito, ligado ao modo de vida e à produção.
"Resgatando e promovendo o patrimônio cultural e natural da comunidade." A comida típica, a festa, o artesanato, a paisagem e a arquitetura locais fazem parte do produto, e a comunidade deve se beneficiar.
Para efeito de políticas públicas, o ministério considera que expressões como agroturismo, turismo na agricultura familiar, turismo de interior, agroecoturismo e turismo sertanejo estão todas dentro da definição de turismo rural.
Como surgiu no Brasil
| Ano | O que aconteceu |
|---|---|
| anos 1980 | primeiras fazendas abertas à visitação em Lages (SC), na serra catarinense; a Fazenda Pedras Brancas recebe visitantes desde 1983 |
| anos seguintes | fazendas de café em Minas, no Rio e em São Paulo passam a receber turistas, dando novo uso a sedes históricas |
| anos 1990 e 2000 | expansão do segmento pelo país, segundo o MTur |
| 1999 | fundação da Associação de Agroturismo Acolhida na Colônia, nas Encostas da Serra Geral (SC), inspirada na rede francesa Accueil Paysan |
| 2003 | o Ministério do Turismo publica as Diretrizes para o Desenvolvimento do Turismo Rural, com a definição oficial |
| 2005 | Venda Nova do Imigrante (ES) recebe o título de Capital Nacional do Agroturismo, segundo o município |
| 2015 | a Lei nº 13.171 inclui a exploração do turismo rural, quando auxiliar da atividade agroeconômica, entre as atividades do empregador rural |
| 2020 | a Organização Mundial do Turismo dedica o ano ao turismo para o desenvolvimento rural; o MTur publica boletim especial sobre o segmento |
| 2024 | a nova Lei Geral do Turismo (nº 14.978) passa a reconhecer produtores rurais e agricultores familiares como prestadores de serviços turísticos, sem que percam a condição de produtor rural |
| 2025 | a Portaria MTur nº 25 abre o Cadastur para produtores rurais oferecerem hospedagem, alimentação e experiências |
Segundo o boletim de 2020 do Ministério do Turismo, a expansão dos anos 1990 e 2000 trouxe problemas que pediram organização do setor: excesso de visitantes e carros em estruturas rurais, questões legais, degradação ambiental e descaracterização da atividade. O mesmo documento aponta, entre os ganhos, a diversificação da renda no campo e a presença forte de mulheres com acesso a renda nessas atividades.
A história de Lages e dos primeiros hotéis-fazenda está contada em hospedagem rural.
Três testes para reconhecer turismo rural
1. Tem produção de verdade? Pergunte o que a propriedade produz e se dá para ver. Uma fazenda leiteira que mostra a ordenha, um sítio que vende o próprio queijo, um cafezal na colheita passam no teste. Um hotel com dois cavalos e um pônei para foto, não.
2. A comida vem de onde? No turismo rural, a mesa costuma ser a vitrine da produção: queijo, doce, embutido, café, verdura da horta. Se tudo vem do atacado da cidade, falta o vínculo com a terra. O tema está em comida de fazenda.
3. Quem ganha com a visita? Quando você compra do produtor, almoça na casa da família e contrata guia local, a renda fica no campo. Esse é o argumento central do Ministério do Turismo para apoiar o segmento: renda complementar, emprego e valorização do produto local. Veja turismo rural sustentável.
Passar nos três não significa que o lugar é bom, nem falhar significa que é ruim. Significa só que a experiência é, de fato, rural.
As modalidades
| Modalidade | Foco | Exemplo de experiência |
|---|---|---|
| Agroturismo | a atividade produtiva da propriedade | acompanhar ordenha, colheita ou a produção de queijo |
| Turismo rural na agricultura familiar | o modo de vida da família agricultora | dormir e comer na casa de agricultores |
| Hotel-fazenda | hospedagem com lazer e vivência do campo | piscina, cavalgada e café colonial |
| Turismo de base comunitária | a comunidade organizada como anfitriã | roteiros em quilombos e assentamentos |
| Ecoturismo e aventura no campo | a natureza da propriedade ou da região | trilha, cachoeira, observação de aves |
O agroturismo, a parte mais ligada à produção, tem um guia próprio em o que é agroturismo, e o turismo feito pelas próprias comunidades, em turismo de base comunitária.
Onde ele acontece
O boletim do MTur de 2020 listou roteiros em todas as regiões. Alguns exemplos:
- Sul: Caminhos de Pedra e Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves (RS); os hotéis-fazenda de Lages, São Joaquim e Bom Jardim da Serra (SC); o Circuito Italiano de Turismo Rural, em Colombo (PR).
- Sudeste: o Circuito do Agroturismo de Venda Nova do Imigrante (ES); o Circuito das Frutas, em nove municípios paulistas como Jundiaí, Valinhos e Louveira; o Vale do Café, em Vassouras e região (RJ); Gonçalves, no sul de Minas.
- Nordeste: a Rota Verde do Café, em Baturité, Mulungu e Guaramiranga (CE); o Brejo paraibano, em Areia e Bananeiras; a Rota da Liberdade, em quilombos de Cachoeira (BA).
- Centro-Oeste: o Caminho dos Ipês, em Campo Grande e municípios vizinhos (MS); as fazendas do Pantanal em Poconé (MT).
- Norte: as fazendas de búfalos de Soure e Salvaterra, no Marajó (PA); o Quilombo Mumbuca, no Jalapão (TO).
O panorama por região, com épocas e roteiros, está no guia de turismo rural no Brasil.
Quem viaja
O perfil do turista rural brasileiro ainda é pouco pesquisado. O Ministério do Turismo descreve, com base em estudo de 2010, um visitante que mora em grande centro urbano, faz viagens curtas de fim de semana e feriado, gosta da gastronomia regional, valoriza produtos artesanais, viaja por conta própria e costuma percorrer distâncias de até 150 km entre a cidade e o destino.
Esse retrato explica por que tantos roteiros rurais ficam em cinturões próximos às capitais. Para montar a primeira viagem, veja como planejar uma viagem rural.
Fontes
- Ministério do Turismo. Boletim de Inteligência de Mercado no Turismo: Experiências do Turismo Rural, 7ª edição, dez/2020.
- UFRGS. Turismo rural: conceitos, tipologias e funções (cita as Diretrizes do MTur de 2003).
- Presidência da República. Lei nº 13.171/2015.
- Rádio Senado. Nova Lei Geral do Turismo é sancionada (Lei 14.978/2024).
- Prefeitura de Jundiaí. Produtores rurais já podem se cadastrar no Cadastur (Portaria MTur 25/2025).
- ND Mais. Como uma aposta pioneira nos anos 1980 transformou a serra catarinense.




