Em Venda Nova do Imigrante, nas montanhas do Espírito Santo, famílias de origem italiana fazem há gerações o socol, um embutido de lombo suíno salgado e maturado que veio do Vêneto. Em 2018, o INPI reconheceu a indicação de procedência do socol de Venda Nova, e um artigo do Incaper sobre o registro observa que o produto, além de renda, virou símbolo da identidade local e estímulo ao agroturismo. É um bom retrato do conceito: o visitante vai até a propriedade por causa do que ela produz.

O município se apresenta como Capital Nacional do Agroturismo, título que diz ter recebido em 2005. Mas o agroturismo está espalhado pelo país, do pomar de morango em Atibaia à fazenda de búfalos no Marajó.

O que é, e o que não é

Agroturismo é a modalidade do turismo rural em que a atividade agropecuária da propriedade é o próprio atrativo. O visitante acompanha, e às vezes participa, do que acontece ali: ordenha, colheita, secagem do café, fabricação de queijo, de doce ou de embutido.

Duas características costumam marcar o agroturismo na literatura sobre o tema:

  1. a produção continua sendo a principal fonte de renda da família, e o turismo é complementar;
  2. a visita se encaixa na rotina da propriedade, em vez de a rotina ser montada para a visita.

Por isso, o turismo rural é o conceito maior, e o agroturismo, uma parte dele. Um hotel-fazenda com piscina, recreação e alguns cavalos é turismo rural; uma pequena propriedade que abre a queijaria para quem chega é agroturismo. O conceito geral está em o que é turismo rural.

Onde ver a produção de perto

Os exemplos abaixo aparecem no boletim do Ministério do Turismo sobre experiências de turismo rural (2020) ou em fontes oficiais dos municípios. Servem como ponto de partida; horários e agendamento mudam, então confirme antes.

ProdutoOndeO que se vê
Socol, café, queijo, cachaçaCircuito do Agroturismo, Venda Nova do Imigrante (ES)propriedades familiares com biscoitos, embutidos, laticínios, vinho, café e pesque-pague
FrutasCircuito das Frutas (SP): Atibaia, Indaiatuba, Itatiba, Itupeva, Jarinu, Jundiaí, Louveira, Morungaba, Valinhos e Vinhedopomares de uva, caqui, goiaba, pêssego, morango e figo, com colha e pague em algumas propriedades
Comida da roça e hospedagem na casa do agricultorAcolhida na Colônia, Encostas da Serra Geral e outras regiões de SCrotina da família agricultora, refeições com a produção da casa
CaféRota Verde do Café, no Maciço de Baturité: Baturité, Mulungu, Guaramiranga e Pacoti (CE)café arábica cultivado à sombra de ingás, a cerca de 900 m, em área de Mata Atlântica; rota criada em 2015 com apoio do Sebrae
Queijo de búfalafazendas de Soure e Salvaterra, Ilha de Marajó (PA)criação de búfalos, queijo do Marajó, cavalgadas nos campos alagados
Mozarela de búfala, cococircuitos rurais de Linhares (ES)queijaria com degustação, visita ao plantel de búfalos
Vinho e cultura italianaCaminhos de Pedra, Bento Gonçalves (RS)cantinas, queijaria, cuca, erva-mate e tecelagem em casas do século 19

O roteiro gaúcho está detalhado em roteiro pela Serra Gaúcha, e a colheita de frutas, em colha e pague.

O caso do Espírito Santo

O Espírito Santo é um dos estados com mais roteiros no boletim do MTur: listou mais de uma dezena de circuitos de agroturismo. Em Domingos Martins, por exemplo, são vários: Chapéu, Galo, Vale da Estação, Paraju e Orgânicos e Naturais. O Circuito Paraju, segundo o boletim, começou em 2011 e reunia 27 empreendimentos, entre agroindústria, artesanato, hospedagem e alimentação, organizados pelos próprios donos.

Em Santa Maria de Jetibá, a visita passa pela cultura pomerana, com grupos de dança e de trombonistas, e por um dos maiores polos de produção de ovos do país. Em Santa Teresa, o Circuito Caravaggio, criado em 2008, junta licores, vinhos, cachaça e móveis rústicos de descendentes de italianos.

Esse modelo, com dezenas de famílias de um mesmo distrito abrindo a porteira em um roteiro único, é a forma mais comum de agroturismo organizado no Brasil.

Visita de um dia, vivência ou circuito

Visita de algumas horas. Você agenda, chega, acompanha uma etapa da produção, prova e compra. É o formato mais comum em queijarias, alambiques e cafés. Ver visita a alambique e turismo do café.

Vivência com pernoite. Você dorme na propriedade e acompanha a rotina em mais de um horário, inclusive a ordenha da madrugada. Ver ordenha e vivências com animais.

Circuito. Você percorre várias propriedades de um mesmo distrito em um ou dois dias, de carro. É o modelo de Venda Nova, Domingos Martins e do Circuito das Frutas.

O que muda para o produtor

A Lei nº 13.171/2015 incluiu a exploração do turismo rural, quando auxiliar da atividade agroeconômica, entre as atividades do empregador rural. A nova Lei Geral do Turismo, de 2024, passou a reconhecer produtores rurais e agricultores familiares como prestadores de serviços turísticos sem que percam essa condição, e a Portaria MTur nº 25/2025 abriu o Cadastur para eles.

Na prática, isso facilita que um sítio pequeno receba visitantes de forma regular, com acesso a crédito e a programas de turismo. Para quem visita, o cadastro é mais um sinal de que a atividade é organizada.

Como visitar sem atrapalhar

  • Agende. A propriedade é local de trabalho; ordenha e colheita têm hora.
  • Chegue no horário. Atraso pode significar perder a etapa que você queria ver.
  • Pergunte antes de entrar em curral, pomar, estufa ou sala de produção. Em queijarias e embutidos, há regras de higiene.
  • Compre direto. É a forma mais simples de a visita gerar renda para quem recebe.
  • Respeite a época. Fora da safra, não haverá colheita; isso faz parte.

Os cuidados com saúde no campo estão em saúde e segurança no campo.

Fontes